quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sorte ou azar?

Era uma vez um menino pobre que morava na China e estava sentado na calçada do lado de fora da sua casa. O que ele mais desejava era ter um cavalo, mas não tinha dinheiro. Justamente nesta dia passou em sua rua uma cavalaria, que levava um potrinho incapaz de acompanhar o grupo. O dono da cavalaria, sabendo do desejo do menino, perguntou se ele queria o cavalinho. Exultante o menino aceitou. Um vizinho, tomando conhecimento do ocorrido, disse ao pai do garoto: "Seu filho é de sorte!" "Por quê?", perguntou o pai. "Ora", disse ele, "seu filho queria um cavalo, passa uma cavalaria e ele ganha um potrinho. Não é uma sorte?" "Pode ser sorte ou pode ser azar!", comentou o pai.
O menino cuidou do cavalo com todo zelo, mas um dia, já crescido, o animal fugiu. Desta vez, o vizinho diz: "Seu filho é azarento, hein? Ele ganha um potrinho, cuida dele até a fase adulta, e o potro foge!" "Pode ser sorte ou pode ser azar!", repetiu o pai.
O tempo passa e um dia o cavalo volta com uma manada selvagem. O menino, agora um rapaz, consegue cercá-los e fica com todos eles. Observa o vizinho: "Seu filho é de sorte! Ganha um potrinho, cria, ele foge e volta com um bando de cavalos selvagens." "Pode ser sorte ou pode ser azar!", responde novamente o pai. Mais tarde, o rapaz estava treinando um dos cavalos, quando cai e quebra a perna. Vem o vizinho: "Seu filho é de azar! o cavalo foge, volta com uma manada selvagem, o garoto vai treinar um deles e quebra a perna." "Pode ser sorte ou pode ser azar!", insiste o pai.
Dias depois, o reino onde moravam declara guerra ao reino vizinho. Todos os jovens são convocados, menos o rapaz que estava com a perna quebrada. O vizinho: "Seu filho é de sorte..."
Assim é na vida, tudo que acontece pode ser sorte ou azar. Depende do que vem depois. O que parece azar num momento, pode ser sorte no futuro.
Do livro: O Sucesso não Ocorre por Acaso - Dr. Lair Ribeiro - Ed. Objetiva

A princesa obstinada

Um certo rei acreditava que o correto era que lhe haviam ensinado e aquilo que pensava. Sob muitos aspectos era um homem justo, mas também uma pessoa de idéias limitadas.
Um dia reuniu suas três filhas e lhes disse:
- Tudo o que tenho é de vocês, ou será no futuro. Por meu intermédio vieram a este mundo. Minha vontade é o que determina o futuro de vocês, e portanto o seu destino.
Obedientes e persuadidas da verdade enunciada pelo pai, duas das moças concordaram. Mas a terceira retrucou:
- Embora a minha posição me obrigue a atacar as leis, não posso acreditar que meu destino deva ser sempre determinado por suas opiniões.
- Isso é o que veremos – disse o rei.
Ordenou que prendessem a jovem numa pequena cela, onde ela penou durante alguns anos. Enquanto isso o rei e suas duas filhas submissas dilapidaram bem depressa as riquezas que de outro modo também seriam gastas com a princesa prisioneira.
O rei disse para si mesmo:
"Essa moça está encarcerada não por vontade própria, mas sim pela minha. Isto vem provar, de maneira cabal para qualquer mentalidade lógica, que é minha vontade e não a dela que está determinando seu destino."
Os habitantes do reino, inteirados da situação de sua princesa, comentaram:
- Ela deve ter feito ou dito algo realmente grave para que um monarca, no qual não descobrimos nenhuma falha, trate assim a sua própria filha, semente viva de seu sangue.
Mas ainda não haviam chegado ao ponto de sentir a necessidade de contestar a pretensão do rei de ser sempre justo e correto em todos os seus atos.
De tempos em tempos o rei ia visitar a moça. Conquanto pálida e debilitada pelo longo encarceramento, ela se obstinava em sua atitude.
Finalmente a paciência do rei chegou a seu derradeiro limite:
- Seu persistente desafio – disse à filha – só servirá para me aborrecer ainda mais, e aparentemente enfraquecerá meus direitos caso você permaneça em seus domínios. Eu poderia matá-la, mas sou magnânimo. Assim, me limitarei a desterrá-la para o deserto que faz divisa com meu reino. É uma região inóspita, povoada somente por animais selvagens e proscritos excêntricos, incapazes de sobreviver em nossa sociedade racional. Ali logo descobrirá se pode levar outra existência diferente daquela vivida no seio de sua família; e se a encontrar, veremos se a preferirá à que conheceu aqui.
O decreto real foi prontamente acatado, e a princesa conduzida à fronteira do reino. A moça logo se encontrou num território selvagem e que guardava uma semelhança mínima com o ambiente protetor em que havia crescido. Mas bem depressa ela percebeu que uma caverna podia servir de casa, que nozes e frutas provinham tanto de árvores como de pratos de ouro, que o calor provinha do Sol. Aquela região tinha um clima e uma maneira de existir próprios.
Depois de algum tempo ela já conseguira organizar sua vida tão bem que obtinha água de mananciais, legumes da terra cultivada e fogo de uma árvore que ardia em chamas.
"Aqui", murmurou para si própria a princesa desterrada, "há uma vida cujos elementos se integram, formando uma unidade, mas nem individual ou coletivamente obedecem às ordens de meu pai, o rei."
Certo dia um viajante perdido, casualmente um homem muito rico e ilustre, encontrou a princesa exilada, enamorou-se dela e a levou para seu país, onde se casaram.
Passado algum tempo os dois decidiram voltar ao deserto, onde construíram uma enorme e próspera cidade. Ali, sua sabedoria, recursos próprios e sua fé se expandiram plenamente. Os ‘excêntricos’ e outros banidos, muitos deles tidos como loucos, harmonizaram-se plena e proveitosamente com aquela existência de múltiplas facetas.
A cidade e a campina que a circundava se tornaram conhecidas em todo o mundo. Em pouco tempo eclipsara amplamente em progresso e beleza o reino do pai da princesa obstinada.
Por decisão unânime da população total, a princesa e seu marido foram escolhidos como soberanos daquele novo reino ideal.
Finalmente o pai da princesa obstinada resolveu conhecer de perto o estranho e misterioso lugar que brotara do antigo deserto, povoado, pelo menos em parte, por aquelas criaturas que ele e os que lhe faziam coro desprezavam.
Quando, de cabeça baixa, ele se acercou dos pés do trono onde o jovem casal estava sentado e ergueu seus olhos para encontrar os daquela soberana, cuja fama de justiça, prosperidade e discernimento superava em muito o seu renome, pôde captar as palavras murmuradas por sua filha:
- Como pode ver, pai, cada homem e cada mulher têm seu próprio destino e fazem sua própria escolha.
Do livro: Histórias da Tradição Sufi - Editora Dervish

A borboleta e seu casulo


Um dia, uma pequena abertura apareceu em um casulo; um homem sentou e observou a borboleta por várias horas, conforme ela se esforçava para fazer com que seu corpo passasse através daquele pequeno buraco.
Então pareceu que ela havia parado de fazer qualquer progresso.Parecia que ela tinha ido o mais longe que podia, e não conseguia ir mais. Então o homem decidiu ajudar a borboleta: ele pegou uma tesoura e cortou o restante do casulo. A borboleta então saiu facilmente. Mas seu corpo estava murcho e era pequeno e tinha as asas amassadas.
O homem continuou a observar a borboleta porque ele esperava que, a qualquer momento, as asas dela se abrissem e esticassem para serem capazes de suportar o corpo que iria se afirmar a tempo.Nada aconteceu! Na verdade, a borboleta passou o resto da sua vida rastejando com um corpo murcho e asas encolhidas. Ela nunca foi capaz de voar. O que o homem, em sua gentileza e vontade de ajudar não compreendia, era que o casulo apertado e o esforço necessário à borboleta para passar através da pequena abertura era o modo com que a natureza fazia com que o fluido do corpo da borboleta fosse para as suas asas, de modo que ela estaria pronta para voar uma vez que estivesse livre do casulo.Algumas vezes, o esforço é justamente o que precisamos em nossa vida. Se passássemos esta nossa vida sem quaisquer obstáculos, nós não iríamos ser tão fortes como poderíamos ter sido.Eu quis Força... e recebi Dificuldades para me fazer forte.Eu quis Sabedoria... e recebi Problemas para resolver.Eu quis Prosperidade... e recebi Cérebro e Músculos para trabalhar.Eu quis Coragem... e recebi Perigo para superar.Eu quis Amor... e recebi pessoas com Problemas para ajudar.Eu quis Favores... e recebi Oportunidades.Eu não tive nada do que quis ... Mas eu recebi tudo de que precisava.

O destino em tuas mãos

Numa cidadezinha modesta havia um grande sábio. A ele toda a população recorria em busca de ensinamentos e orientação para a vida. Havia, também, um menino que não aceitava a autoridade do sábio e vivia articulando uma forma de desmoralizá-lo perante a opinião pública. Depois de muito pensar um jeito: prenderia um pássaro em sua mão.
Depois perguntaria ao sábio se o pássaro está morto ou vivo. Se o sábio dissesse que ele está morto, o menino soltaria o pássaro se dissesse que ele está vivo, ele mataria a ave, assim o sábio não acertaria nunca! E assim fez. Chegou perto do sábio e perguntou:
- Sábio, o senhor que sabe tudo, responda: este pássaro que está nas minhas mãos está vivo ou está morto?
- O sábio olhou sereno e fixamente em seus olhos e respondeu:
- Meu filho, o destino do pássaro está nas suas mãos. Assim podemos concluir: a sua vida também está nas suas mãos. Faça o melhor que puder por ela

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Re-constituição (Elisa Lucinda)

Tive de repentesaudade da bebida que eu estava bebendo...
tive saudade e tentei me lembrar que gosto faltava,
qual era a bebida...
Fui procurando entre copos e móveise dei com sua boca.
A saudade era delaA bebida era o beijo.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Adão e Eva- machado de Assis


Uma senhora de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos,
tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas, grande
lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa
chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam todos discutindo a
curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do
paraíso devia caber a Eva ou a Adão. As senhoras diziam que a Adão, os homens
que a Eva, menos o juiz-de-fora, que não dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que
interrogado pela dona da casa, D. Leonor:
— Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e não mentia, porque
era insigne na viola e na harpa, não menos que na teologia.
Consultado, o juiz-de-fora respondeu que não havia matéria para opinião;
porque as cousas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que está
contado no primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo. Espanto geral, riso do
carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos sujeitos da
cidade, e sabia que era também jovial e inventivo, e até amigo da pulha, uma vez
que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era gravíssimo.
— Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faça calar o Sr. Veloso.
— Não o faço calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca há de sair
tudo com boa significação.
— Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo João Barbosa.
— Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o Sr.
Veloso conhece outros livros...
— Conheço o autêntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce que
D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se não mandam o contrário.
— Vá lá, diga.
— Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus
que criou o mundo, foi o Diabo...
— Cruz! exclamaram as senhoras.
— Não diga esse nome, pediu D. Leonor.
— Sim, parece que... ia intervindo frei Bento.
— Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu
no pensamento, deixou-lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar
a obra, a fim de que ao próprio mal não ficasse a desesperança da salvação ou do
benefício. E a ação divina mostrou-se logo porque, tendo o Tinhoso criado as trevas,
Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No segundo dia, em que foram
criadas as águas, nasceram as tempestades e os furacões; mas as brisas da tarde
baixaram do pensamento divino. No terceiro dia foi feita a terra, e brotaram dela os
vegetais, mas só os vegetais sem fruto nem flor, os espinhosos, as ervas que matam
como a cicuta; Deus, porém, criou as árvores frutíferas e os vegetais que nutrem ou
encantam. E tendo o Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a
lua e as estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da
www.nead.uanam.br
3
terra, da água e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui peço que redobrem de
atenção.
Não era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa.
Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo depois
a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso não podia dar, e só com ruins
instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos
nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a misericórdia divina; fez brotar um jardim
de delícias, e para ali os conduziu, investindo-os na posse de tudo. Um e outro
caíram aos pés do Senhor, derramando lágrimas de gratidão. "Vivereis aqui", disselhe
o Senhor, "e comereis de todos os frutos, menos o desta árvore, que é a da
ciência do Bem e do Mal."
Adão e Eva ouviram submissos; e ficando sós, olharam um para o outro,
admirados; não pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os bons
sentimentos, cogitava de armar um laço a Adão, e Adão tinha ímpetos de espancála.
Agora, porém, embebiam-se na contemplação um do outro, ou na vista da
natureza, que era esplêndida. Nunca até então viram ares tão puros, nem águas tão
frescas, nem flores tão lindas e cheirosas, nem o sol tinha para nenhuma outra parte
as mesmas torrentes de claridade. E dando as mãos percorreram tudo, a rir muito,
nos primeiros dias, porque até então não sabiam rir. Não tinham a sensação do
tempo. Não sentiam o peso da ociosidade; viviam da contemplação. De tarde iam
ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente chegavam a mil,
dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos.
Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. Não podia ir ao
paraíso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor; mas ouvindo
um rumor no chão entre folhas secas, olhou e viu que era a serpente. Chamou-a
alvoroçado.
— Vem cá, serpe, fel rasteiro, peçonha das peçonhas, queres tu ser a
embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai?
A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o
Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a mandasse, —
às estrelas, se lhe desse as asas da águia — ao mar, se lhe confiasse o segredo de
respirar na água — ao fundo da terra, se lhe ensinasse o talento da formiga. E falava
a maligna, falava à toa, sem parar, contente e pródiga da língua; mas o diabo
interrompeu-a:
— Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem à terra, mas tão-somente ao
jardim de delícias, onde estão vivendo Adão e Eva.
— Adão e Eva?
— Sim, Adão e Eva.
— Duas belas criaturas que vimos andar há tempos, altas e direitas como
palmeiras?
— Justamente.
— Oh! detesto-os. Adão e Eva? Não, não, manda-me a outro lugar. Detestoos!
Só a vista deles faz-me padecer muito. Não hás de querer que lhes faça mal...
— É justamente para isso.
— Deveras? Então vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda,
dize depressa o que queres que faça. Que morda o calcanhar de Eva? Morderei...
www.nead.uanam.br
4
— Não, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrário. Há no jardim
uma árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal; eles não devem tocar nela, nem
comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na árvore, e quando um deles ali passar,
chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que é a mais saborosa
fruta do mundo; se te responder que não, tu insistirás, dizendo que é bastante comêla
para conhecer o próprio segredo da vida. Vai, vai...
— Vou; mas não falarei a Adão, falarei a Eva. Vou, vou. Que é o próprio
segredo da vida, não?
— Sim, o próprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do
mal, e se te saíres bem, juro que terás a melhor parte na criação, que é a parte
humana, porque terás muito calcanhar de Eva que morder, muito sangue de Adão
em que deitar o vírus do mal... Vai, vai, não te esqueças...
Esquecer? Já levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraíso, rastejou até a
árvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu daí a pouco,
caminhando sozinha, esbelta, com a segurança de uma rainha que sabe que
ninguém lhe arrancará a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a peçonha
à língua, mas advertiu que estava ali às ordens do Tinhoso, e, com a voz de mel,
chamou-a. Eva estremeceu.
— Quem me chama?
— Sou eu, estou comendo desta fruta...
— Desgraçada, é a árvore do Bem e do Mal!
— Justamente. Conheço agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida.
Anda, come e terás um grande poder na terra.
— Não, pérfida!
— Néscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o
que te digo, e serás legião, fundarás cidades, e chamar-te-ás Cleópatra, Dido,
Semíramis; darás heróis do teu ventre, e serás Cornélia; ouvirás a voz do céu, e
serás Débora; cantarás e serás Safo. E um dia, se Deus quiser descer à terra,
escolherá as tuas entranhas, e chamar-te-ás Maria de Nazaré. Que mais queres tu?
Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta obediência. Nem será só
isso. Toda a natureza te fará bela e mais bela. Cores das folhas verdes, cores do
céu azul, vivas ou pálidas, cores da noite, hão de refletir nos teus olhos. A mesma
noite, de porfia com o sol, virá brincar nos teus cabelos. Os filhos do teu seio tecerão
para ti as melhores vestiduras, comporão os mais finos aromas, e as aves te darão
as suas plumas, e a terra as suas flores, tudo, tudo, tudo...
Eva escutava impassível; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de
Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra
ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente,
que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso.
Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel:
— Vai, arcanjo meu, desce ao paraíso terrestre, onde vivem Adão e Eva, e
traze-os para a eterna bem-aventurança, que mereceram pela repulsa às instigações
do Tinhoso.
E logo o arcanjo, pondo na cabeça o elmo de diamante, que rutila como um
milhar de sóis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Adão e Eva, e disselhes:
www.nead.uanam.br
5
— Salve, Adão e Eva. Vinde comigo para o paraíso, que merecestes pela
repulsa às instigações do Tinhoso.
Um e outro, atônitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obediência;
então Gabriel deu as mãos a ambos, e os três subiram até à estância eterna, onde
miríades de anjos os esperavam, cantando:
— Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue às obras do Tinhoso, aos
animais ferozes e maléficos, às plantas daninhas e peçonhentas, ao ar impuro, à
vida dos pântanos. Reinará nela a serpente que rasteja, babuja e morde, nenhuma
criatura igual a vós porá entre tanta abominação a nota da esperança e da piedade.
E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que
uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da criação...
... Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor para
que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros,
embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo
menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira que falou:
— Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que
lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
— Lá o saberá o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo.
E o juiz-de-fora, levando à boca uma colher de doce:
— Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor,
se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na
verdade, uma cousa primorosa. É ainda aquela sua antiga doceira de Itapagip

domingo, 18 de maio de 2008

conto zen

Um viajante, passando pela casa de um Rabi, perguntou admirado:
- Onde estão os teus móveis?
A que o Rabi respondeu, perguntando:
- E os teus?
- Mas eu...retrucou o viajante, estou só de passagem.
- Eu também – respondeu o Rabi.